Vida & Estilo · Águas da Prata (SP)
Caminho da Fé vira rota turística nacional por lei: 100 mil caminhantes por ano, e 6 em cada 10 vão de bicicleta
Reconhecida em julho no Diário Oficial, a rede de peregrinação inspirada em Santiago de Compostela soma 2,5 mil quilômetros de ramais por 72 municípios de SP e Minas, todos desaguando em Aparecida. No meio do caminho, pousada, pastel e economia de cidade pequena.
O Caminho da Fé, a rota de peregrinação inspirada no Caminho de Santiago que corta a Mantiqueira rumo ao Santuário de Aparecida, virou oficialmente rota turística nacional em julho, por lei publicada no Diário Oficial da União. O registro em ata, que esta professora aposentada tanto preza, chancela o que a estrada já sabia: são mais de 100 mil pessoas por ano percorrendo o trajeto, e 60% delas pedalando.
A geografia do caminho é um mapa do interior profundo: o ramal principal soma 318 quilômetros de Águas da Prata, na divisa paulista com Minas, até Aparecida, mas a rede completa chega a cerca de 2,5 mil quilômetros de ramais espalhados por 72 municípios dos dois estados. Tambaú, Vargem Grande do Sul, São João da Boa Vista, Paraisópolis: a lista de cidades atravessadas é um censo de lugar que o turismo convencional nunca visitou.
E é aí que mora a notícia econômica dentro da espiritual: peregrino dorme, come, carimba credencial e conserta câmbio de bicicleta. Cem mil pessoas por ano, gastando em pousada familiar, mercearia e borracharia de beira de estrada, são uma folha de pagamento difusa que não aparece em nenhum Caged, mas sustenta quarto de aluguel e marmita em dezenas de cidades que não têm outra vocação turística.
O selo de rota nacional abre porta para sinalização, fomento e divulgação oficial, e a régua desta coluna fica marcada: lei no papel precisa virar placa na estrada e banheiro público no trecho. Mas o essencial o caminhante já provou sozinho, pé por pé: no interior, até o silêncio bem cuidado vira economia. E das boas, porque não se muda para a capital.

