Colunas · Crônica
O coreto ouve tudo
Crônica de Dora Campos.

O coreto da minha infância tinha seis colunas e uma fama injusta de inútil. A banda tocava nele duas vezes por ano, no padroeiro e no sete de setembro, e no resto do calendário ele ficava ali, de chapéu de zinco, ouvindo.
Ouvia o que a cidade inteira não tinha coragem de dizer em casa. Namoro começando no degrau, do lado que a luz do poste não alcança. Negócio sendo desfeito em voz baixa, com aperto de mão mole. Menino decorando tabuada em voz alta, mulher rezando baixinho de passagem, homem ensaiando o pedido de desculpa que ia fazer na janta. O coreto guardou tudo e nunca entregou ninguém. Conheço gente que devia ao coreto a reputação que tinha.
De tardinha era o horário nobre. As senhoras chegavam primeiro e tomavam os bancos de frente, que eram de quem chegasse e ficavam sendo delas. Os aposentados vinham depois, com o rádio de pilha e coisa e tal, discutir um futebol que já tinha acabado. A praça funcionava sem regimento interno, e olhe que nunca precisou de um.
Fui rever um coreto desses agora, numa cidade que não vem ao caso. Pintaram ele de novo, botaram lixeira nova, baixaram o jardim ao redor. Na hora em que encostei na mureta, um menino de uns dez anos subiu correndo os degraus, parou no meio, olhou a praça de cima como quem assume um navio. Ficou ali um tempão, mandando no horizonte.
Desci com a certeza de que está tudo em ordem. Capital nenhuma tem um móvel desses: um lugar que não serve para nada e por isso serve para tudo, há cem anos, sem cobrar ingresso.
O coreto segue ouvindo. Ainda bem.

